Posts tagged: review
[ Originalmente publicado na LOUD! #134 ]

Quando os Modern Life Is War editaram “Witness” em 2005, a fasquia do hardcore melódico ficou de tal forma elevada que poucos conseguiram aproximar-se da sua intensidade. Os belgas Midnight Souls estreiam-se agora com “Going Through The Motions”, depois de um promissor 7” em 2010, “Colder”, e têm tudo para agradar aos fãs do género e não só. Voz desesperada, um som agressivo e sobretudo as emoções derivadas da procura do sentido da vida à saída da adolescência, misturadas com muita raiva, desilusão e desespero (“There is no hope for you, there never was for me”). “Going Through The Motions” é inegavelmente o expurgar desses sentimentos, muito à imagem de uns Defeater ou The Carrier, e que só não vai directamente para o lote dos eleitos sem passar pela casa de partida porque em apenas 26 minutos a sua segunda metade acaba por perder algum fôlego face à primeira, bem mais agressiva e directa. Provavelmente uma questão de tempo até chegar ao nível dos conterrâneos Rise and Fall ou Oathbreaker. [7.5] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #134 ]

Aparentemente há vida para lá dos The Black Keys em Akron, Ohio. A banda que dá pelo sugestivo nome de If These Trees Could Talk é sua conterrânea, mas com um nome assim, haverá algum hipótese de não ser uma banda de pós-rock? Se por um lado este é um género cuja definição é escorregadia, por outro basta ouvir os primeiros minutos de “Red Forest”, segundo álbum destes norte-americanos, para se perceber que estamos perante um exemplo perfeito do género. Paradoxal? Talvez. A verdade é que apesar disso, e embora “Red Forest” denote uma execução a roçar a perfeição, com diálogos muito interessantes entre os três guitarristas e uma secção rítmica bastante coesa, falta-lhe aquele bocadinho extra que distingue a mediania no género e bandas que o definiram como os Godspeed You Black Emperor!, Explosions in the Sky ou os God Is An Astronaut. Esta diferença poderá muito provavelmente ser atenuada ao vivo e dada a evolução em relação a “Above the Earth, Below the Sky” de 2009, quem sabe os If These Trees Could Talk não darão no futuro esse salto? [7] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #134 ]

Os Rise And Fall são uma daquelas bandas que, dada a sua qualidade, começou desde cedo a construir um nome para si própria no panteão do hardcore moderno. O corolário disso é o facto destes belgas serem das bandas há mais tempo de braço dado com a Deathwish, relação que se mantém agora com “Faith”. Forjando uma identidade cada vez mais própria - bem patente num tema mais longo como “Things Are Different Now” - este novo álbum não nega as óbvias influências de uns Tragedy, Converge ou Integrity, mas é de alguma forma a cristalização da crua estreia “Into Oblivion” com o mais antémico “Our Circle is Vicious”, de 2009, embrulhado num som pesado e dinâmico - mais uma vez cortesia, claro está, de Kurt Ballou - e com d-beat a rodos. O tema referido é aliás central ao álbum, dividindo duas metades de castanhada da melhor apanha, onde o avanço “Hidden Hands” ou “Escapism” mostram bem o potencial de devastação sónica que estes naturais de Ghent têm ao vivo. Líricamente, sabe-se o que esperar deste tipo hardcore moderno, mas não é por isso que versos como “Here’s a quick fix, here’s a hammer and nails / There’s an early grave calling your name” deixam de acarretar um impacto emocional significativo. Para arredondar tudo isto, “Faith/Fate”, com quase sete minutos de duração, encerra o álbum de forma emotiva e memorável ao fim de pouco menos de meia hora, deixando pouca escolha para além de premir o botão “play” outra vez. E outra vez. [8] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #134 ]

“De Vermis Mysteriis” é um tomo sinistro e arcano dos Mitos de Cthulu, com feitiços capazes de invocar vampiros e coisas que tais. E que tal fazer disso um álbum conceptual sobre um nado-morto irmão gémeo de Jesus Cristo que reincarna como viajante no tempo por entre os devaneios de Lovecraft? É disso que é feito o sexto álbum dos High On Fire, que sucede a um algo tépido “Snakes For The Divine” e que eleva a patamares inéditos o som destes stoners norte-americanos. “Serums of Liao” abre logo com a fúria habitual, mas é a partir de “Madness Of An Architect” que nos apercebemos que está aqui algo de realmente especial. Tudo está no ponto, com o requinte de mais uma inebriante produção de Kurt Ballou pelo que quando chegamos a “King of Days”, a rendição aos seus serpenteantes e operáticos sete minutos é total. Com o melhor desempenho de sempre de Pike na voz, um sem número de grandes riffs e uma secção rítmica avassaladora, “De Vermis Mysteriis” é sem sombra de dúvida o álbum que define até agora os High On Fire. [8] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #133 ]

Há discos que são como o algodão: não enganam. O início de “South Salem” é revelador. Metade do primeiro minuto é sujidão e feedback. De súbito um gravalhão que nos leva a pensar por que raio andará aqui o Greg Anderson a tocar riffs a la Black Sabbath com a sua afinação de Goatsnake. E finalmente, não refeitos da surpresa, entra uma voz feminina numa toada bluesy, com um timbre do mais sexy que se possa imaginar. Chama-se Uta Plotkin, invoca Janis Joplin, tem uma amplitude vocal invejável e confere aos norte-americanos Witch Mountain um twist bastante interessante no que ao doom diz respeito, um pouco à semelhança dos surpreendentes Blood Ceremony. A juntar à festa, solos de guitarra que deixarão o Jimi contente no seu eterno descanso, tudo isto envolvido num groove e balanço que dificilmente poderão deixar qualquer fã deste género indiferente. “South of Salem” são três quartos de hora do melhor doom que se tem ouvido por estes lados e mais uma aposta ganha da sempre surpreendente Profound Lore. [8.5] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #133 ]

Os lisboetas Dawnrider não são propriamente um exemplo de estabilidade a nível de elementos da banda, mas isso não os tem impedido de editar discos com alguma regularidade e amplificar a cada lançamento a intensidade da sua música. Depois de “Alpha Chapter” em 2007 e do sucessor “Two” em 2009, chega agora o momento do primeiro disco ao vivo oficial. Gravado em Março de 2010, “Doom Over Invicta” só recentemente viu a luz do dia e enganem-se aqueles que esperavam uma gravação cristalina, com um som todo polidinho, pois o stoner/doom dos Dawnrider não se compadece com qualquer tipo de pudores e está longe de ser asséptico. Mais perto de uma bootleg de audiência na forma e no conteúdo, a banda tira partido dessa característica para dar uma dimensão especialmente crua aos temas retirados na sua maioria de “Two”. Provavelmente a entrar num novo ciclo com nova formação, “Doom Over Invicta” é um registo bastante fiel não só do que foram os últimos anos dos Dawnrider, mas sobretudo da sua pujança e entrega em palco. [7.5] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #133 ]

É quase inevitável, numa espaço de crítica musical como este, etiquetar o álbum em questão dentro de um mais géneros. Para quem não conhece a respectiva banda, acaba por ser a forma mais simples de reduzir o assunto ao essencial. O problema surge com bandas como os Borknagar, especialmente num disco como “Urd”, onde catalogar se torna virtualmente impossível, sob pena de ocupar todo o espaço da crítica meramente a debitar sub-géneros musicais. Oriundos da Noruega, com raízes óbvias no black metal, os Borknagar passaram os últimos quinze anos a demarcarem-se da restante onda de puro BM escandinavo, explorando sem preconceitos diferentes sonoridades, ao ponto de serem encarados, claro está, como black metal… progressivo. Assim sendo, o que não se pode esperar de “Urd” é monotonia, o que agradará aos fãs de tudo o que é “prog”, porém será certamente bastante incómodo para quem gosta do seu metal curto e grosso. De um ponto de vista objectivo, atendendo ao que os Borknagar pretendem indubitavelmente fazer neste disco, a verdade é que “Urd” é de uma competência técnica inquestionável e é provavelmente o seu trabalho mais consistente e acessível até à data, com um sentido ultra-melódico ajudado pela excelente produção de Jens Bogren (Opeth, Katatonia). Não agradará a todos, mas para quem “progressivo” e “black metal” são duas expressões que podem perfeitamente co-existir, então “Urd” não pode passar em claro. [7.5] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #133 ]

Uma banda para contabilizar 24 anos de história terá de ter algo bastante significativo para justificar tal longevidade. No caso dos Anti-Flag são 24 anos e nove álbums anti-sistema, contra-corrente e de mensagem política clara, por via de um punk rock corrido e sempre em frente. “The General Strike” não será de todo uma surpresa para quem conhece a banda, intercalando temas mais agressivos com outros que fazem inclusivamente lembrar o “vibe” de uns The Clash. No entanto, é difícil olhar para esta última proposta como algo de verdadeiramente marcante na história dos Anti-Flag, especialmente quando comparado com a primeira fase da banda. Tal como sucedeu com os Bad Religion na sua fase mais recente, “The General Strike” soa um pouco a piloto automático e embora flua com naturalidade do princípio ao fim, com uma boa produção para o género, agradará quase exclusivamente à facção NOFX, Rancid, Pennywise do punk rock. No entanto, quando a mensagem é relevante, será mesmo preciso inovar? [6] P.A.
[ Originalmente publicado na LOUD! #133 ]

Mais do que alguns sub-géneros mais “difusos” do metal, o funeral doom acaba por ser, quiçá, um estilo cujas características fundamentais são bastante bem definidas, facilmente reconhecíveis até pelos menos identificados com o género. Os Towards Darkness, oriundos do Canadá e anteriormente conhecidos por The Mass, não fogem a essa matriz de cujo dicionário a pressa não consta, mas têm em “Barren” o mérito de introduzir uma dose de agressividade que neutraliza alguma depressão em favor de um ambiente mais apocalíptico. O que, diga-se, não será suficiente, nem de perto nem de longe, para justificar as analogias com Neurosis que a própria Avantgarde faz notar no seu press release. Fãs de Unholy, Skepticism ou Shape of Despair sentir-se-ão “em casa” e se é certo que os Towards Darkness não reinventam aqui nenhuma roda, também não é menos verdade que “Barren” é extremamente competente e uma adição válida ao catálogo de uma editora que se tem destacado precisamente neste tipo de som. [7] P.A.